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Capa do filme. |
"Os lugares mais sombrios do Inferno são reservados àqueles que se mantiveram neutros em tempos de crise moral."
Ron Howard pode não ser um diretor versátil ou cheio de conceitos técnicos sobre cinematografia, mas não se pode duvidar de sua competência e acuidade ao transportar uma história para as telonas, fato que ficou bem claro nos anteriores Anjos e Demônios e O Código da Vinci.
Contudo, na terceira adaptação para o cinema do quarto livro envolvendo o simbologista Robert Langdon, o cenário muda de figura. Um pouco mais impreciso e deixando passar uma porção de detalhes importantes para a trama, Inferno deixa a desejar em muitos aspectos.
Como nas histórias anteriores, o filme gira em torno de Robert Langdon, só que desta vez este primeiro não se encontra em suas plenas capacidades, tendo acordado em um hospital, com perda de memória recente. Ajudado pela enfermeira que o estava auxiliando, Langdon foge da tentativa de homicídio que estaria sendo armada contra ele no hospital. Daí em diante Langdon parte em busca da descoberta do mistério que cerca os dois dias anteriores, a fim de desvendar o porquê daquilo estar lhe acontecendo.
No decorrer da trama, apresentam-se diversos subnúcleos dentro da história, sempre de forma bem dinâmica, algo que caracterizou Howard nas duas adaptações anteriores à esta. Contudo, apesar desse dinamismo e da urgência que os fatos relevados deveriam dar, a sensação é que o enredo funciona de forma estática. A urgência dos acontecimentos, em muitos casos, é deixada de lado em função de histórias de fundo descartáveis, como a proposta de idealização de um romance vivido por Langdon.
A despeito disto, o enredo central até que funciona bem, centrando-se na ideia do perigo da superpopulação mundial nos últimos séculos, princípio baseado (de forma exagerada, claro) na Teoria populacional Malthusiana ("An Essay on the Principle of Population", 1798) e a "necessidade" de um genocídio generalizado orquestrado pela mente insana do antagonista do filme: Bertrand Zobrist, que cria uma espécie de praga biológica. Para isso, o argumentista fornece uma trama intrincada usando a magnífica obra-prima A Divina Comédia, de Dante Alighieri e o quadro de Botticelli, que esboça os nove círculos do Inferno descritos por Dante em seu livro.
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"Mappa dell'Inferno", por Sandro Botticelli |
Com o decorrer do filme, o momento do clímax começa a tomar forma e o desfecho é moldado. Um pouco decepcionante, tanto o desfecho quanto o filme falham em muitos aspectos e tornam o filme mais monótono do que a história realmente é. O ponto de destaque fica mesmo nos flashbacks vivenciados por Langdon durante o filme, que proporcionam belas imagens anacrônicas.
Há muito que se falar da fórmula de escrita já batida de Dan Brown, o que acaba resultando em filmes de mesma espécie. Mas apesar de tudo isso, eu gostei do que vi. Confesso que esperava que o filme explorasse bem mais os versos de Dante utilizados no livro do Dan Brown, que - para mim - são o que torna o livro tão instigante, mas o filme ainda consegue entreter. É esperar que em uma possível futura adaptação de um outro livro do Dan Brown, o diretor saiba dar a urgência e a objetividade que as tramas do autor tanto empregam.