domingo, 20 de maio de 2018

Dedo de Prosa #21: Vou rifar meu coração (2012)

Capa do documentário.
Quando tomei conhecimento desta produção, que trabalha o cenário da música "brega" no imaginário brasileiro e as compleições perceptivas com as quais esse nicho musical se relaciona com o Eros, fiquei deveras interessado. Apesar de minha pouca idade, esse gênero musical sempre teve em mim um grande apreciador e, portanto, a oportunidade de associar isto a um de meus interesses mais recorrentes - o "mundo dos afetos" - soou-me como uma possibilidade agradabilíssima. Felizmente eu estava correto.

O documentário, dirigido por Ana Rieper trabalha três pontos principais que considero dignos de nota. São eles, respectivamente: a formação do Eros no imaginário popular, a relação sinestésica presente neste nicho do cancioneiro popular e, por último, as implicações sociais e políticas da rotulação pejorativa presente na conotaçâo "brega".

Deste modo, o documentário estende seu alcance narrativo tanto aos campos poéticos, presentes nas expressões sensoriais que circundam o tema, como nas características imanentes que decorrem consequencialmente das estruturas de poder que agiam (e agem) sobre esse gênero musical.

Sobre a formação do Eros, o documentário realça as particulares perceptivas de pessoas comuns acerca do que constitui o amor, nas suas mais variadas ordens e intensidades. De tal modo que a expressão trágica presente nessas percepções reflitam todo o ardor e a confusão caótica que constitui a vida dos afetos. Sobre isto, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (Vozes, 2017), em seu livro “Agonia do Eros”, demonstra - embora eu não concorde com sua consequência final, mas não tratarei desta aqui - como a massificação do entendimento do Eros enquanto despojamento da relação com o Outro ("atopia of the Other") e a positivização dos prazeres como constitutivo do campo dos afetos, refletem a derrocada do amor no mundo contemporâneo. Ou seja, a posição de entrega e fragilidade que, superadas pelas condições do mundo contemporâneo, representam os estímulos da formação do Eros, é a base constituinte do imaginário popular da época.

Desta forma, como demonstrado no documentário, que a relação desse imaginário com a música "brega" se dá. A realidade presente do campo dos afetos, como entendida à época, era representada simbolicamente nas representações desses tantos artistas. A verdade dos sentimentos expressos nestas músicas acabavam por produzir um sentimento de pertencimento e identificação que, a despeito da distância entre artista e ouvinte, os conectava por meio de tais produções. A própria realidade sócio-econômica de ambos (que trabalharei mais à frente) fazia um recorte de aproximação entre tais círculos sociais, que interagiam entre si.

Dito isto, fica a questão: por que a aferição de música "brega", se tais canções possuíam tanta popularidade e vendiam aos montes? A que interesses essa aferição pejorativa servia? Pegando um gancho no comentário feito pelo Agnaldo Timóteo no documentário: "Eu não sou brega, pois quando eu subo no palco eu sou um monstro. [...] Por que essa música é brega? Só porque ela não é do Chico Buarque?"

As implicações desse simples comentário, porém, são mais profundas do que aparentam. Em seu “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”, Lobão (Nova Fronteira, 2013) afirma:

[...] existe uma invariância de estruturas que governam o (des)conhecimento, sancionadas por uma cartilha ideológica, emulando um presente decalcado de um passado cenograficamente glorioso e impossível de ser superado. Na música, a MPB, sigla criada na época dos festivais para designar a produção musical de quem se alinhava ao pensamento de esquerda nos anos 1960 e para excluir os demais (sob todos os pretextos), é o exemplo típico de indução por meio da repetição obssessiva para dar a ideia de que a qualidade e a excelência do nosso cancioneiro, de que os grandes gênios e arautos da liberdade eram um fenômeno exclusivo daquela época e daquela sigla de proveta.
No final do século XIX, o intelectual brasileiro, órfão da monarquia, procurava desesperadamente construir uma nova identidade nacional a partir das condições reais da existência do país: a pobreza. Houve um grande fluxo de pesquisas e obras voltadas para o interior, mas sempre numa abordagem um tanto forçada, afetada. Na verdade, havia um certo incômodo em perseguir uma identidade brasileira tão diferente da realidade em que esses intelectuais bem-nascidos foram formados. E essa procura, a meu ver, jamais teve fim. (LOBÃO, 2013, p. 25-26)

Desta forma que, na entrada do século XX, tantos movimentos de cunho nacionalista surgiram: seja ele o modernismo de 22, o tropicalismo ou, por fim, a MPB. Sob o jugo desse núcleo duro de intelligentsia que foi se formando, com o decorrer do tempo, a sujeição da música "brega" ao coronelato de intelectuais com interesses político-artísticos escusos. A "máfia do dendê" - termo eternizado pelo jornalista Cláudio Tognolli - sedimentou os horizontes dessa influência a ponto de produzir uma estratificação cultural, de tal forma, que artistas que não estivessem presentes neste círculo dificilmente conseguiriam alçar voos maiores para suas carreiras. Sobre isto, Lobão complementa:

O que se pode concluir com esse panorama é que temos arraigados em nossas entranhas vícios de auto-imagem que nos arremessam em nossas entranhas vícios de auto-imagem que nos arremessam ao mesmo lugar. Vivemos num presente contínuo em que os mesmos valores e as mesmas figuras se repetem ao infinito, sem que qualquer alteração relevante possa ser vivenciada.
Essa atitude monomaníaca é uma mentalidade concebida pelo filósofo revolucionário franco-argelino Frantz Fanon: a vocação histórica de uma burguesia nacional seria de "se negar enquanto burguesia, de se negar enquanto instrumento do capital, para se tornar totalmente escrava do capital revolucionário". Com esse discurso de esquerda idiota, fomos vitimados por uma vasta produção de canções dedicadas a traduzir a realidade do povo através do delirante e culpado ponto de vista do intelectual/artista da classe média, no sentido de doar uma verdadeira "consistência" a algo a que o povão não tinha o menor acesso, pelo que não tinha a menor empatia, muito menos interesse: a música de cunho social com letras que deveriam ser... inteligentes.
Daí a grande frase atribuída a Joãosinho Trinta: quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta é de luxo. (LOBÃO, 2013, p. 34)

Ou seja, a condição popular da música "brega" foi, em substância, solapada pelos interesses masturbatórios de uma elite cultural que se jactava das suas produções, intensificando as tensões sócio-políticas que circundavam o seu não-pertencimento aos interesses da massa, visto que o que interessava à tal indústria cultural (alô, Adorno!) era a formação de uma consciência coletiva que favorecesse determinadas predileções abstratas. (Para mais, ler "Esquerda caviar", de Rodrigo Constantino; "O ópio dos intelectuais", de Raymond Aron e " Os intelectuais e a sociedade", de Thomas Sowell).

O documentário "Vou rifar meu coração" - em homenagem a faixa homônima de Lindomar Castilho -, portanto, reflete lindamente o panorama simbólico no qual a música "brega" está inserida. Isto posto, percebe-se como a assimilação das paixões, tais como são - ler "O gozo genuíno" -, por parte deste gênero musical e a erudição com que este trabalha o campo dos afetos é, sobremodo, de uma profundidade exímia. O declínio da poesia (tema que tratarei em ensaios futuros) no mundo contemporâneo adiciona ao campo dos afetos uma superficialidade de tratamento que, sobremaneira, desorienta e empobrece as relações afetivas, de tal forma que o fenômeno das identidades tergiversantes reincidam na proliferação da destruição atroz das compleições simbólicas da vida afetiva. Perde-se a sujeira no amor e a poesia no desejo. O Eros agoniza.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Sem Mais Delongas #20: O gozo genuíno.

(ou como o sexo representa o humano na sua mais profunda natureza).


"Tudo no mundo está relacionado a sexo, exceto o próprio sexo, que está relacionado a poder." - Oscar Wilde


Em tempos em que o debate público foi tomado por um puritanismo tacanho (de todas as ordens) e a sexualidade é constantemente ameaçada, de todos os lados, a simples menção do sexo como algo despudorado, possessivo e visceral causa calafrios. De um lado bufam os puritanos em nome da beatitude virginal; do outro alardeiam os hipócritas metidos à desconstruídos que policiam qualquer espécie de "excesso" que consideram - arbitrariamente - violador.

Esquecem-se, talvez, de considerar um elemento importante que estimula o entrelace carnal entre dois indivíduos, que - para todos os fins - é o objetivo último de qualquer transa: o gozo. Arrisco-me aqui a soar utilitarista ou, até mesmo, hedonista, mas a imposição de comportamentos sexuais, expressos nas mais variadas ordens, por parte desses "policiais do sexo", é um completo descompromisso para com o exercício mais intrínseco da troca sexual entre dois indivíduos: a busca pelo prazer.

E não se trata aqui, em substância, de negar as diversas dimensões que englobam o ato sexual, reduzindo a questão apenas ao prazer per si ou mesmo colocando o prazer como o único objetivo do sexo, plastificando - consequentemente - toda a complexidade de elementos que giram em torno do ato sexual.

É óbvio que existem questões sociais, históricas e, principalmente, biológicas dentro da história da sexualidade. E, de tal forma, é claro que o ressentimento de nossa geração também decorre da perda de significado das relações sociais, nos mais diversos âmbitos (inclusive o sexual). O meu ponto, no entanto, é no que tange ao aspecto mais íntimo de como as pessoas interagem sexualmente.

A descoberta de diversos métodos contraceptivos; a descoberta do viagra; a facilidade de se conseguir o ato sexual impulsionado pela fragilidade das relações sociais: tudo isso impulsionou uma banalização do sexo, de forma que sublimou-se o prazer à um patamar sem precedentes, despindo todo o "foreplay" de seus elementos complexos e confusos e das responsabilidades que antes haviam de ser lidadas com relação ao ato sexual. Lembremos, afinal, da sensação de fragilidade que acomete à quem está transando: uma amostra de exposição; a nudez como reveladora das fraquezas individuais.

Isto posto, acaba-se por entender - embora continue sendo abjeto - esse levante em prol da defesa da castidade e da santidade. Com a desaparição de todo esse corpo de intrincamentos no que concerne ao campo das relações sexuais, toda uma massa de puritanos (um tanto hipócritas, se formos sinceros) brada em alto e bom tom sob a tutela dos "bons costumes".

Mas embora a crítica à perda de significado do sexo seja interessante - por mais que eu não concorde com ela -, em especial no tocante a criação de uma certa automação/plasticidade das relações sexuais, na sanha descontrolada pelo rompimento do "tabu" relacionado ao sexo, enxergo nela um caráter muito mais pessoal do que generalista. Apesar do cerne dessa crítica estar ligado ao fator de equilíbrio do seio social, a maneira como ela se manifesta não soa tão autoritária como o constante discurso dos humanistas falsários.

Sobre isto, é curioso como boa parte da mentalidade desses pudicos de meia tigela gira em torno de um fetichismo barato, no qual deve-se condenar essa ou aquela maneira de expressar-se sexualmente. De um lado, restringe-se o sexo apenas ao matrimônio; do outro, censura-se qualquer "excesso" - em especial ao que diz respeito a maneira com que o homem deve se portar - em uma transa.

A farsa da preservação dos interesses desorienta o que há de mais espontâneo nos desejos sexuais, de tal forma que o sexo tenha se transformado em uma expressão extremamente caricata e frígida dos desejos humanos; não é à toa que somos a geração mais ressentida que já passou pela história da humanidade.

A coibição de simples atitudes cotidianas do desejo sexual produzem consequências extremamente nocivas no consciente coletivo. Não é por acaso que, por exemplo, a seita do "empoderamento feminino" tenha castrado o homem de tal maneira que, mesmo atitudes banais, tais como xingar sua parceira na hora da transa, dar-lhe um puxão de cabelo ou mesmo um tapa um pouco mais acintoso, tenham se transformado em uma expressão degenerada e sintomática de um machismo atávico e inadmissível.

Da mesma forma para as mulheres que, na sanha descontrolada de uma imposição arbitrária de terceiros, veem-se impelidas a não agir dessa ou daquela forma, a fim de não legitimar essa relação de "submissão" perante o homem. E quão numerosos não são os chiliques revoltosos disfarçados de críticas sociais que atentam para o quão abjeto é uma mulher se sujeitar a fazer sexo oral num homem (pois a construção iconográfica dessa cena geralmente a coloca de joelhos - um sinal de sujeição, segundo tais "críticas") ou mesmo colocar-se "de quatro", pois isso sugere uma animalização (essa mesma posição em inglês chama-se "doggystyle") da mulher, tornando-a apenas um objeto de satisfação do prazer masculino!
"L'Origine du monde" (Gustave Courbet, 1886)
Toda essa histeria coletiva, reforçada sob a tutela de "crítica social/comportamental", não passa de um autoritarismo tacanho e vergonhoso. Não é da conta de ninguém a forma como dois indivíduos - na particularidade de suas vidas privadas - interagem sexualmente um com o outro. Ambos estando de comum acordo, que se satisfaçam da maneira mais intensa que puderem!

O "eunuco contemporâneo" narrado pela Camille Paglia (uma feminista, vejam só!) é decorrência de uma intensa suavização do comportamento masculino, para além de diversos outros fatores impulsionados pela covardia gerada pelo paradigma da previdência do mundo contemporâneo, em especial pela crescente (e não tomando isso como algo ruim, claro) produção material proporcionada pela sociedade de mercado.

Todo esse escopo de nuances faz com que, tanto homens como mulheres, fiquem confusos em meio a algo tão cotidiano como o sexo. É eliminado de suas mentes que, como bem disse Oscar Wilde, o sexo é sim uma relação de poder, incluindo-se neste uma pitada de desrespeito.

Da mesma forma que as relações afetivas, o sexo também é um nicho das relações humanas em que há um intenso conflito entre a liberdade e a dominação, no qual projeta-se no outro os desejos e anseios de satisfação sexual. Não há nada mais satisfatório do que presenciar que a outra pessoa está extasiada, de tal forma, que se encontra completamente entregue às suas ações.

O olhar safado; a sensação de submissão e dominação; o desejo descontrolado pela satisfação do outro; a tara proporcionada pelo toque. Tudo isso é condição inequívoca de expressão sexual, despida de julgamentos prévios e imposições morais externas. Toda a atmosfera de devassidão e sujeira que compõe o ato sexual é de uma natureza intrinsecamente deliciosa; e assim o é, justamente pelo prazer de possuir o objeto de seu desejo. Pois para além da submissão de um ao outro, a característica mais crucial do sexo é justamente a submissão de ambos ao tesão.

Tal processo de policiamento do sexo é tão sacal que, em substância, nichos comportamentais como o BDSM provocam escândalo quando ressaltados como possibilidade dentro do sexo. Um dos maiores lixos produzidos pela "indústria cultural" (alô, Adorno!) - leia-se "50 tons de cinza" - demonstra bem como esse processo acontece. Enquanto toda a produção "cultural/artística" (sic) de massa foi tomada por uma vulgarização sem precedentes (e boa parte destes desconstruídos hipócritas a defendem), a vida íntima de um casal é constantemente atacada sob a égide da defesa contra "excessos".

Todo esse escândalo causado pelo sexo possui um caráter totalmente histérico. Lembremos que, afinal, no pensamento freudiano, a histeria sempre esteve ligada à negação do gozo. A demonização do sexo, na contemporaneidade, não é diferente.

O sexo, mesmo na sua mais tradicional expressão, é a representação mais clara e verdadeira do instinto animalesco que se esconde sob os desejos humanos; a expressão mais objetiva das taras e dos prazeres que escondemos no nosso subconsciente. Apenas um lunático, em substância, condenaria um determinado comportamento sexual da vida íntima alheia. Afinal, alguém que está interessado em alcançar o gozo nem mesmo teria tempo de ficar lidando com tamanhas picuinhas...

"Suprima as taras e os vícios, elimine as preocupações carnais, e não reencontrará mais almas; pois o que chamamos com esse nome é apenas um produto de escândalos interiores, uma designação de vergonhas misteriosas, uma idealização da abjeção..." - Emil Cioran

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Dedo de Prosa #20: Jogos Mortais 8 - Jigsaw (2017)

Imagens promocionais do filme.
Antes de tudo, preciso colocar um ponto aqui: como a própria imagem de fundo sugere, este que vos fala é um grande apreciador da franquia "Jogos Mortais". Chega a ser difícil colocar em palavras o tamanho da ligação que possuo com essa franquia, que vi nascer em 2004 quando ainda era uma criança e vi "acabar" em 2010 com o seu capítulo final.

Além disso, sempre fui (e essa franquia tem parcela de influência nisso) um intenso admirador do gênero terror na sétima arte. Muito por isso que, ao saber que produziriam um reboot da franquia, fiquei com muito receio de estragarem o legado (que não é pequeno, ao meu ver, pois partilho da opinião de que "Jogos Mortais" foi a última grande franquia do gênero e a melhor coisa que aconteceu para esse nicho cinematográfico nos últimos tempos - não à toa é a franquia de terror mais bem sucedida de todos os tempos) construído na primeira década do séc. XXI. É muito comum, vide "Sexta-Feira 13", as franquias perderem a qualidade conforme o passar do tempo e uma porção de sequências desnecessárias serem produzidas. Felizmente, isso (ainda!) não aconteceu com "Jogos Mortais" - ao menos para mim.

É é claro que o filme possui algumas falhas; minha afeição ao filme não é suficiente para obscurecer o meu olhar objetivo sobre a trama. Ainda assim, o filme é muito bem desenvolvido naquilo que se propõe a fazer, respeitando toda a atmosfera que a franquia sempre teve.

Um momento de regozijo, claro, é a reaparição nostálgica de Tobin Bell (John Kramer) ao papel que lhe deu status de serial killer, de forma extremamente digna (felizmente não o ressuscitaram, apesar de boa parte da trama aventar essa possibilidade).

Os intrincamentos narrativos estão muito bem dispostos; os jogos continuam extremamente viscerais e a fusão da culpa e de reflexões existenciais que o roteiro acomete aos seus personagens (uma das características mais marcantes de toda a franquia) permanecem extremamente pontuais nesse novo longa.

Embora as atuações não sejam lá grande coisa (em especial no que tange ao desenvolvimento dos personagens do jogo, que possuem pouca função narrrativa além de servirem como mera "isca"), isso não é o suficiente para comprometer a estrutura de toda a trama. Já trama paralela de investigação, melhor trabalha, suscita uma constante sensação de insegurança com relação aos envolvidos, despindo-os de qualquer semelhança para com a imagem de herói.

O trabalho dos irmãos Spierig foi de grande respeito para tudo que a franquia construiu durante esse tempo (lembrando-me um pouco o respeito com que J. J. Abrams tratou "Star Wars" ao revitalizar a franquia em seu 7° episódio). Por mais que não hajam inventividades narrativas que modifiquem drasticamente a forma como as histórias se desenvolvem (o que pode soar "mais do mesmo" para um olhar despretensioso), está claro que - ao menos inicialmente - assim devia ser. Do contrário, o público se dispersaria.

Isto posto, reitero - com imensa alegria - que meu receio inicial, felizmente, foi desmontado. Espero, sinceramente, que, após essa volta da franquia (que já abriu portas para novas sequências - e isso sem parecer algo forçado - embora seja, convenhamos), o que vier pela frente consiga manter o mesmo nível (se não de qualidade, mas - pelo menos - de respeito ao legado de "Jogos Mortais"). E que comecem os jogos...!

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Dedo de Prosa #19: A Forma da Água (2017)

Capa do filme.
Antes de começar minha peroração sobre o filme com mais indicações do Oscar desse ano, considero importante ressaltar um segundo fator, a fim de que algumas coisas sejam melhor esclarecidas: eu não aprecio, de uma forma geral, o trabalho do diretor mexicano Guillermo Del Toro

Seus filmes fantasiosos, sempre com intuitos simbólicos, costumam me causar um certo tédio, trazendo à minha memória uma espécie de produção equivalente a um Tim Burton com um visual mais "clean"

De todo modo, apesar de possuir um certo receio com relação ao diretor (e com o número de indicações que o filme recebeu no tão famigerado Oscar - que para mim ganhou um status pejorativo), procurei assisti-lo da maneira mais despojada de pré-conceitos que consegui. Agora vamos ao que interessa...

O filme começa com uma atmosfera bem leve, contrastando, em suas nuances, com o enredo mais pesado que ali está sendo tratado. O clima de sobriedade da trilha, as cores cintilantes e as entrelinhas interpretativas da personagem principal - Elisa (Sally Hawkins) - costuram todo aquele panorama característico (e um tanto clichê) do cinema hollywoodiano, sempre priorizando as catarses psíquicas nos seus tons narrativos em relação ao aspecto mais visceral das verdades cruas de um cinema menos delirante.

Assim sendo, a iconografia que se pode pintar - ao menos no seu "prólogo" - é a construção de apenas mais um filme piegas, com apelações emotivas e eventuais críticas (para o deleite de toda a intelligentsia hollywoodiana) ao paroxismo sensorial proporcionado pela produção material e a formação de uma caricatura (já batida, diga-se de passagem) do Tio Sam vilão, no contexto da guerra fria.

Contudo, conforme o transcorrer da trama (não seria melhor dizer fábula?) se desenvolve e as nuances narrativas são sedimentadas, uma trama que excede os vícios da construção cinematográfica já pausterizada por Hollywood e sua mentalidade geral de boa selvageria começa a se construir, possibilitando que se tente - ainda que à duras penas - apreciar um pouco o resultado final do filme.

Por mais que o tom da narrativa acabe por, consequentemente, aderir aos velhos mecanismos de apelação psicológica (alô, Spielberg!) e construir um romance que, da maneira que se desenvolveu, decorra em diversos cacoetes dramáticos já estereotipados (e sem sal, diga-se de passagem), o resultado final do filme até que é bastante agradável e, em substância, intensamente belo.

O destaque, contudo, fica mais por conta das partes técnicas, em especial a primorosa fotografia de Dan Laustsen, focalizando a estética da imagem em tons de azul e verde (pois não basta falar da forma da água, se não mostrar a cor da mesma). O filme, em si, até que é interessante e, reconheço, até conseguirá agradar a um espectador que o assista de maneira mais despretensiosa. 

Não obstante, está muito longe de merecer as 13 indicações ao festival de cinema mais importante do mundo (sic) que é o Oscar. Sua presença magnânima (e a ausência total de obras brilhantes como Mãe!) demonstra, de maneira sintomática, o quão presos os críticos hollywoodianos da sétima arte estão dentro do arauto de seus círculos de preferências. E depois reclamam quando dizem que o cinema está morrendo...

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Sem Mais Delongas #19: O direito à arrogância.

(ou de como a arrogância tem de ser merecida).


É curioso como posturas como a arrogância - assim como o pessimismo - são vistas pelo inconsciente geral com certa repugnância, ainda mais se formos honestos o suficiente e começarmos a perceber que, em certa medida, todos assumimos uma postura arrogante perante alguma situação, em algum momento de nossas vidas. Ainda assim, talvez por influência do "bom selvagem rousseauniano" ou da estúpida crença contemporânea de que todos são iguais e devem se amar mutuamente (o eterno blá-blá-blá dos humanistas falsários), grande parcela das pessoas tem dificuldade em se enxergar assim, pois se enxergam como possuidores de uma pureza incorruptível.

O mundo real, entretanto, não é essa alegoria um tanto romântica da vida em comunidade. Pois, como bem observou o Pondé: "alguns poucos homens são melhores do que a maioria". O problema que planejo tratar, contudo, não é a arrogância em si, pois vejo-a como algo natural e, muitas vezes, saudável. Afinal, como bem diria Burke, o mal só insurge como magnânimo quando os bons deixam-se ser dominados pela crença ilusória de alguns. O ponto que aqui planejo discorrer (e como o título já sugere), é o momento em que a arrogância pode ser considerada como algo salutar.

Para isso, tomarei como premissa a ideia de que, para que a arrogância seja disposta de maneira coerente, é necessário que ela seja impulsionada por um aprofundamento ostensivo em uma determinada questão em específico, de modo que esta se justifique dentro deste contexto. Assim sendo, um indivíduo tem o direito de, perante uma pessoa com pouco (pra não dizer nenhum) arcabouço de conhecimento acerca de um tema, colocar-se em uma posição de superioridade com relação ao outro. 

É justamente invertendo-se os lados que se encontrará o aspecto deplorável da tomada de uma postura arrogante. A ausência de merecimento, assim colocado, é que transforma a adoção dessa postura em algo deplorável. É o cúmulo do absurdo que alguém, inepto em algum assunto, julgue-se apto para conversar sobre um assunto com alguém de estudos aprofundados sobre aquele tema. Portanto, é totalmente compreensível que o erudito do contexto se recuse a nivelar o debate por baixo, até mesmo para preservar a própria sanidade do processo de aquisição de um repertório cognitivo.

Quando Sócrates, séculos antes de Cristo, afirmou que a virtude de um sábio é o reconhecimento de sua própria ignorância, ele não estendeu essa afirmativa aos limites da adoção de uma humildade genérica e hipócrita, mas entendeu que é necessário que se compreenda os limites da nossa própria sabedoria, a fim de que, consequentemente, saibamos reconhecer em que pontos podemos nos posicionar e expressar-nos sobre e em que pontos devemos nos abster. O verdadeiro exercício da arrogância e da humildade está na conquista da percepção de em que momentos é saudável nos expormos destas maneiras.

Parafraseando o Olavo de Carvalho: a arrogância serve precisamente para aquelas ocasiões onde assumir uma postura humilde é compactuar com a mediocridade. Ou seja: existe toda uma nobreza na adoção de uma postura arrogante, legitimada por um repertório, que é o de preservar a elevação das reflexões acerca do tema. Da mesma forma, é extremamente abjeto supor-se articulado em uma questão sem possuir o repertório necessário para isso. Portanto, é um direito inalienável de todo indivíduo ser arrogante, se ele assim o fez por merecer.