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Capa do documentário. |
Quando tomei conhecimento
desta produção, que trabalha o cenário da música "brega" no
imaginário brasileiro e as compleições perceptivas com as quais esse nicho
musical se relaciona com o Eros, fiquei deveras interessado. Apesar de minha
pouca idade, esse gênero musical sempre teve em mim um grande apreciador e,
portanto, a oportunidade de associar isto a um de meus interesses mais
recorrentes - o "mundo dos afetos" - soou-me como uma possibilidade
agradabilíssima. Felizmente eu estava correto.
O documentário, dirigido
por Ana Rieper trabalha três pontos principais que considero dignos de nota.
São eles, respectivamente: a formação do Eros no imaginário popular, a relação
sinestésica presente neste nicho do cancioneiro popular e, por último, as implicações
sociais e políticas da rotulação pejorativa presente na conotaçâo
"brega".
Deste modo, o documentário
estende seu alcance narrativo tanto aos campos poéticos, presentes nas
expressões sensoriais que circundam o tema, como nas características imanentes
que decorrem consequencialmente das estruturas de poder que agiam (e agem)
sobre esse gênero musical.
Sobre a formação do Eros,
o documentário realça as particulares perceptivas de pessoas comuns acerca do
que constitui o amor, nas suas mais variadas ordens e intensidades. De tal modo
que a expressão trágica presente nessas percepções reflitam todo o ardor e a
confusão caótica que constitui a vida dos afetos. Sobre isto, o filósofo
sul-coreano Byung-Chul Han (Vozes, 2017), em seu livro “Agonia do Eros”,
demonstra - embora eu não concorde com sua consequência final, mas não tratarei
desta aqui - como a massificação do entendimento do Eros enquanto despojamento
da relação com o Outro ("atopia of the Other") e a positivização dos
prazeres como constitutivo do campo dos afetos, refletem a derrocada do amor no
mundo contemporâneo. Ou seja, a posição de entrega e fragilidade que, superadas
pelas condições do mundo contemporâneo, representam os estímulos da formação do
Eros, é a base constituinte do imaginário popular da época.
Desta forma, como
demonstrado no documentário, que a relação desse imaginário com a música
"brega" se dá. A realidade presente do campo dos afetos, como
entendida à época, era representada simbolicamente nas representações desses tantos
artistas. A verdade dos sentimentos expressos nestas músicas acabavam por
produzir um sentimento de pertencimento e identificação que, a despeito da
distância entre artista e ouvinte, os conectava por meio de tais produções. A
própria realidade sócio-econômica de ambos (que trabalharei mais à frente)
fazia um recorte de aproximação entre tais círculos sociais, que interagiam
entre si.
Dito isto, fica a questão:
por que a aferição de música "brega", se tais canções possuíam tanta
popularidade e vendiam aos montes? A que interesses essa aferição pejorativa
servia? Pegando um gancho no comentário feito pelo Agnaldo Timóteo no
documentário: "Eu não sou brega, pois quando eu subo no palco eu sou um
monstro. [...] Por que essa música é brega? Só porque ela não é do Chico
Buarque?"
As implicações desse
simples comentário, porém, são mais profundas do que aparentam. Em seu “Manifesto
do Nada na Terra do Nunca”, Lobão (Nova Fronteira, 2013) afirma:
[...] existe uma invariância de
estruturas que governam o (des)conhecimento, sancionadas por uma cartilha
ideológica, emulando um presente decalcado de um passado cenograficamente
glorioso e impossível de ser superado. Na música, a MPB, sigla criada na época
dos festivais para designar a produção musical de quem se alinhava ao
pensamento de esquerda nos anos 1960 e para excluir os demais (sob todos os
pretextos), é o exemplo típico de indução por meio da repetição obssessiva para
dar a ideia de que a qualidade e a excelência do nosso cancioneiro, de que os
grandes gênios e arautos da liberdade eram um fenômeno exclusivo daquela época
e daquela sigla de proveta.
No final do século XIX, o
intelectual brasileiro, órfão da monarquia, procurava desesperadamente
construir uma nova identidade nacional a partir das condições reais da
existência do país: a pobreza. Houve um grande fluxo de pesquisas e obras
voltadas para o interior, mas sempre numa abordagem um tanto forçada, afetada.
Na verdade, havia um certo incômodo em perseguir uma identidade brasileira tão
diferente da realidade em que esses intelectuais bem-nascidos foram formados. E
essa procura, a meu ver, jamais teve fim. (LOBÃO, 2013, p. 25-26)
Desta forma que, na
entrada do século XX, tantos movimentos de cunho nacionalista surgiram: seja
ele o modernismo de 22, o tropicalismo ou, por fim, a MPB. Sob o jugo desse
núcleo duro de intelligentsia que foi se formando, com o decorrer do tempo, a
sujeição da música "brega" ao coronelato de intelectuais com interesses
político-artísticos escusos. A "máfia do dendê" - termo eternizado
pelo jornalista Cláudio Tognolli - sedimentou os horizontes dessa influência a ponto de produzir
uma estratificação cultural, de tal forma, que artistas que não estivessem
presentes neste círculo dificilmente conseguiriam alçar voos maiores para suas
carreiras. Sobre isto, Lobão
complementa:
O que se pode concluir com esse
panorama é que temos arraigados em nossas entranhas vícios de auto-imagem que
nos arremessam em nossas entranhas vícios de auto-imagem que nos arremessam ao
mesmo lugar. Vivemos num presente contínuo em que os mesmos valores e as mesmas
figuras se repetem ao infinito, sem que qualquer alteração relevante possa ser
vivenciada.
Essa atitude monomaníaca é uma
mentalidade concebida pelo filósofo revolucionário franco-argelino Frantz
Fanon: a vocação histórica de uma burguesia nacional seria de "se negar
enquanto burguesia, de se negar enquanto instrumento do capital, para se tornar
totalmente escrava do capital revolucionário". Com esse discurso de
esquerda idiota, fomos vitimados por uma vasta produção de canções dedicadas a
traduzir a realidade do povo através do delirante e culpado ponto de vista do
intelectual/artista da classe média, no sentido de doar uma verdadeira
"consistência" a algo a que o povão não tinha o menor acesso, pelo
que não tinha a menor empatia, muito menos interesse: a música de cunho social
com letras que deveriam ser... inteligentes.
Daí a grande frase atribuída a
Joãosinho Trinta: quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta é de luxo.
(LOBÃO, 2013, p. 34)
Ou seja, a condição
popular da música "brega" foi, em substância, solapada pelos
interesses masturbatórios de uma elite cultural que se jactava das suas
produções, intensificando as tensões sócio-políticas que circundavam o seu
não-pertencimento aos interesses da massa, visto que o que interessava à tal indústria cultural
(alô, Adorno!) era a formação de uma consciência coletiva que favorecesse
determinadas predileções abstratas. (Para mais, ler "Esquerda
caviar", de Rodrigo Constantino; "O ópio dos intelectuais", de
Raymond Aron e " Os intelectuais e a sociedade", de Thomas Sowell).
O documentário "Vou
rifar meu coração" - em homenagem a faixa homônima de Lindomar Castilho -, portanto, reflete lindamente o panorama simbólico no
qual a música "brega" está inserida. Isto posto, percebe-se como a
assimilação das paixões, tais como são - ler "O gozo genuíno" -, por
parte deste gênero musical e a erudição com que este trabalha o campo dos
afetos é, sobremodo, de uma profundidade exímia. O declínio da poesia (tema que
tratarei em ensaios futuros) no mundo contemporâneo adiciona ao campo dos
afetos uma superficialidade de tratamento que, sobremaneira, desorienta e
empobrece as relações afetivas, de tal forma que o fenômeno das identidades
tergiversantes reincidam na proliferação da destruição atroz das compleições
simbólicas da vida afetiva. Perde-se a sujeira no amor e a poesia no desejo. O
Eros agoniza.